Terça-feira, 4 de Agosto de 2009

Domingo, 28 de Junho de 2009

Non est potestas super terram quae comparetur ei

Escrevo-te para falar de babysitting.

Ao contrário de cartas passadas, nas quais enfatizei romanticamente o tema escolhido, desta feita procurarei ser mais comedido e pragmático. Uma ressalva apenas para te tranquilizar sobre o recurso a esse belo estrangeirismo que é o babysitting, o qual só espero que entendas lá mais para o final da presente carta.

Digo-te então sem rodeios que andamos a brincar às sociedades. Quando digo andamos não me refiro somente aos portugueses (cuja aptidão nessa área é por demais evidente) mas também à grande maioria dos seres humanos do planeta. Trata-se de um conceito aparentemente estapafúrdio que exige uma reflexão prévia sobre a condição humana e a sua natureza intrínseca, pois muito do que aqui escreverei será reflexo de uma visão angustiada e descrente sobre o Homem.

Para defender o Leviathan - um monstro chamado Estado necessário para combater outros monstros ainda piores que ele - Thomas Hobbes concebeu a natureza humana em torno do pessimismo. Classificou-a de egoísta e egocêntrica, justificando-se com o argumento de que o Homem apenas se importava com a sua felicidade. A sua teoria política, como ele próprio confessou a um amigo numa carta, foi sempre “influenciada pelas desordens do tempo presente”, fruto da época conturbada em que viveu. Para Hobbes o medo da morte foi sempre a maior e mais forte das paixões do Homem, pelo que defendeu que ou este abdicava de alguns direitos e os transferia para um Poder comum ou então estaria condenado a viver numa guerra de todos contra todos, numa guerra em que cada um seria inimigo de cada um.

Confesso que cada vez mais me revejo nesta concepção e consequentemente me distancio mais da ideia fácil e generalizada de que o Homem é naturalmente bom, que é a sociedade quem o corrompe. Também eu sou da opinião que o Estado deve ser forte e intransigente no que diz respeito à segurança e à paz pública, com forças de segurança instruídas e um Poder Judicial célere e eficaz. Sucede porém que o Estado de hoje é tirano e controlador, não se limitando a assegurar a segurança do seu Povo, querendo também dizer-lhe como ele há-de viver. Julgo que entenderás se te disser que actualmente temos leis para tudo, ao ponto de chegar a ser um verdadeiro “peso” viver. Tudo nos é imposto. Tudo tem de ser controlado em nome de um bem maior. Mas que bem é esse? Tirando a vida, que bem mais autêntico e fundamental justificará que nos privem da nossa liberdade? E atenção, liberdade aqui não é a que resulta de uma revolução, é a que nasce connosco e que connosco deveria morrer. A hipocrisia dos que defendem um Estado social é tanto mais pecaminosa quando nos apercebemos da nossa condição humana e dela nos tentamos abstrair. Não é, ou pelo menos não deveria ser, motivo de vergonha assumirmos a nossa própria natureza. Quando digo que andamos a brincar às sociedades penso no fingimento que é este mundo em que vivemos. Mas haverá ainda quem acredite que existe alguém que viva preocupado com o próximo? Alguém que, a menos que isso o afecte directa ou indirectamente, sofra com a dor alheia? Quando por exemplo um cidadão dito exemplar paga os seus impostos, será que esse dito cidadão está a pensar no contributo que está a dar para a construção de hospitais e escolas? E se não está, podemos efectivamente culpá-lo por isso? Quando alguém numa farmácia se presta a vender medicamentos está com isso verdadeiramente preocupado em ajudar o cliente? E se não está, será que alguém o pode criticar?

Suponho que te estejas a interrogar sobre qual a relação do que aqui te escrevo com o palavrão com que baptizei esta carta. Pois bem, nos tempos que correm poucos são os que não gostam de babysitting. Poucos são os que não querem que o Estado olhe por eles porque poucos são os que não querem dinheiro caído do céu e não reclamam dos outros o que não conseguem obter. Poucos são os que gostam de dar e muitos são os que gostam de receber. Ao fim e ao cabo é extremamente fácil gostar-se de Babysitting, ou não fosse o homem um ser naturalmente egoísta. O que varia então não é a qualidade mas sim a quantidade.

Se leste em mim traços maquiavélicos é porque não enxergaste o verdadeiro alcance do que aqui te escrevi. É urgente que saibamos reconhecer que não somos perfeitos, muito pelo contrário. É urgente que queiramos fazer algo pelos outros e não somente por nós, pois só assim estaremos habilitados a iluminar o lado negro que abunda em cada Eu. Só assim seremos melhores cidadãos.


Segunda-feira, 31 de Março de 2008

Estado de Polícias

Escrevo-te para falar de responsabilidade política.
No alto do meu palanque improvisado, retomo hoje o encalço dos podres da democracia representativa para questionar a inexistência de uma lei que responsabilize os candidatos a cargos públicos pelas suas promessas eleitorais não cumpridas.
Ao longo destes últimos meses de correspondência já deves ter-te apercebido que a credibilidade não é um valor considerado essencial pelos teus conterrâneos, o que por si só explica o consequente esvaziar a que a palavra humana tem sido sujeita. Interrogas-te então, mas afinal o que será mais importante para o homem do que ter o respeito e a consideração do seu semelhante? Haverá alguma coisa que pese mais do que a honra e a honestidade? Podes parar de te questionar. Há! Chama-se poder, embora seja usual vê-lo disfarçado de dinheiro! Atende bem, só a onerosidade do cargo pode justificar que na hora de abraçar o poder se afogue tais virtudes nas fastidiosas e indesejáveis ondas da consciência, senão vejamos, em troca de meia dúzia de palavras magistralmente escolhidas e eloquentemente vociferadas obtém-se quase que instantaneamente um bilhete com prazo de validade nunca inferior a quatro anos. São perto de mil e quinhentos dias mais perto do sol, sendo certo que a queda é tendencialmente lenta, suave e indolor. E findado esses quatro anos, insistes pacientemente? Que interessa? De certo que aqueles que acreditaram para eleger também acreditarão quando chegar a hora da redenção, mas se por ventura não o fizerem, há sempre um estender de mão do partido compassivo onde o de cujus se encontra filiado ou um ombro amigo de uma oposição misericordiosa, que na hora de ajudar um dos seus não hesita em ultrapassar as barreiras até então intransponíveis da ideologia! Enfim, trata-se de um risco que vale a pena correr! Não estranharás então se te disser que aqueles que defendem o exercício do voto como uma obrigação são os mesmos que teimam em se esquecer de lutar por uma lei que responsabilize a demagogia, até porque todos sabemos que a oratória está para a classe política como a espada está para os guerreiros. Para que melhor me possas entender, pensa numa reedição mobiliária da táctica do quadrado com cadeiras e sofás a fazerem de portugueses e castelhanos, respectivamente. Aqui, o poder das duzentas e trinta cadeiras do hemiciclo resiste inamovível aos sensivelmente dez milhões de sofás, desmobilizados e adormecidos pelo som da televisão, dando assim continuidade à cimentação do provérbio “mais vale poucos e bons do que muitos e maus”, que como todos sabemos, é um dos pilares basilares da identidade lusitana.
Não obstante o infortúnio de tremenda peça, acresce ainda ao já de si turvo e enevoado cenário, a cínica lembrança que esta ousada classe é a mesma que exige constantemente ao comum dos mortais que assuma os seus erros e obrigações e que abdique do seu pedaço de sol para mais perto estar da excelência, leia-se, conformidade. A mesma classe que fomenta o Estado-Polícia entre os seus cidadãos e se escuda na constituição é a única que se dá ao luxo de escolher para si um estado de polícias.
Vislumbro por isso uma e só uma solução, à qual te peço particular atenção. Tenho-te dado a entender nas minhas cartas que não devemos ser obrigados a estar dependentes de terceiros, ainda para mais quando os fundamentos para o fazermos se encontram viciados, e mesmo sabendo que só acredita quem quer ou quem precisa de acreditar, não podemos continuar a aceitar que, agarrados ao seu plinto, haja quem de forma mais ou menos astuciosa se sirva de uma habilidade maliciosa para melhores terrenos pisar. É por isso que defendo que não se deve desculpabilizar quem se propõe a representar os seus congéneres e em vez disso mente, julgo sim ser premente, responsabilizar civil ou mesmo penalmente quem teima em desrespeitar e enganar outros seres humanos por saber que nada de maior lhe acontecerá.

Terça-feira, 26 de Fevereiro de 2008

Selvagens e animais

Escrevo-te para falar de direito dos animais.
Confesso-me envergonhado por só agora partilhar contigo um tema que há muito me preenche a ideia. Ainda mal acredito que quase me deixei moldar por um quotidiano triturador a que cedi sem me aperceber e que só por milagre não apagou os escassos vestígios de humanidade a que ainda ambiciono!
Mesmo perante o iminente risco de ver questionada a minha sanidade mental, disfarço-me de cão para te ladrar nas próximas linhas sobre a crueldade a que os animais têm sido sujeitos.

Quando comparado contigo homem, apenas uma dúzia de anos me são concedidos em média para tentar a minha sorte por estas bandas. Não obstante tão discrepante longevidade, doze anos me bastariam se fosse respeitado o meu direito à vida, que não te iludas, é igual ao teu apesar das minhas quatro patas. Acontece por ventura que fruto de séculos de subjugação à tua espécie, me encontro impossibilitado de viver sozinho e independente num mundo de betão, estradas e automóveis onde me arrisco a cada passo que ouso dar. Tu que construíste este mundo és o mesmo que me priva da minha vida e me obriga a estar dependente de ti. Ao menos redime-te e ajuda-me. És tu que para respeitar o teu conforto e bem estar me privas de viver, julgando-te Deus para decidir quem vive ou morre. Pois a ti te digo homem ingrato, a tua vida não vale mais do que a minha só porque falas, não vale mais do que a minha só porque conseguiste chegar à lua, senão diz-me, de que te serve a fala se ela te falta na hora de acabar com a fome e com a violência? O que tem a lua para destruir que já não tenhas destruído aqui?
E tu misericordioso homem que dizes respeitar o meu direito à vida, deixa-me perguntar-te se respeitas o meu direito à dignidade. Não pensas que por me deixares viver estás perdoado das infâmias que os teus semelhantes cometeram e cometem, ou estás? Não é por me deixares viver que és melhor que eles, provavelmente só o fazes porque te sou necessário, ou para servir a prazo de mascote aos teus descendentes ou para te sustentar, servir e divertir de quando a tempos, isto para não falar do abandono a que me sujeitas quando procuras umas míseras férias ou te cansas de mim depois de mais um par de chinelos roídos.
Não deveria ser necessário apelar ao teu coração, não devia sequer ser forçado a plantar em ti sentimentos de culpa e compaixão, mas não me dás alternativa. A herança que te deixaram compete-te e é tua obrigação tudo fazer para que no futuro essa mesma herança não seja ainda maior para os teus filhos e netos. Não me venhas com o argumento de que antes de me ajudares, ajudarás outros da tua espécie, crianças e velhinhos, por sinal bem mais importantes e merecedores da tua ajuda. Esse teu argumento não passa de uma desculpa de quem diz querer dar mas não pode. E já agora mais importantes porquê? Vais alimentar-te deles? Acontece que nunca te pedi para escolheres nem mesmo para avaliares quem é merecedor da tua parca generosidade, não quero equiparar-me a ti, não por me seres superior, mas por seres estranhamente selvagem. Homem mentiroso! Espera, tu que só olhas para ti diz-me, se te der os votos que tanto precisas, fazes algo por mim?

Bem sei quão infrutífero é este meu esforço de demonstrar o que sente um animal, até porque a imaginação do ser humano, nomeadamente no inventar de atrocidades, aparenta ser infindável. Enquanto isso, aqui andamos nós no nosso quotidiano solitário, totalmente embebidos com questões maiores, moda e chinchilas, desporto mais caça e touradas, obesidade e matadouros, carros e gatos esmagados. Não nos julgues, no teu tempo os animais eram os súbditos. Ah, sim tens razão, isso foi há muitos séculos atrás, quando ainda comiam com as mãos.

Terça-feira, 29 de Janeiro de 2008

réplica

Em resposta à tua carta, falo-te sobre o Estado Social.

“Quererás tu dizer-me com estas palavras, que os meus contemporâneos estão demasiado ocupados com os problemas do quotidiano ao ponto de não se importarem com as injustiças e abusos cometidos pelo seu próprio Estado, pelos seus semelhantes? (…) Diz-me, o que é feito da bravura do meu povo? Ter-se-ão rendido ao chamamento pútrido das facilidades?”
Foi com manifesto e inesperado regozijo que me vi colocado na qualidade de teu destinatário, satisfação tal capaz de me salvar da iminente inércia e de me fazer guerrear contra a ausência de entusiasmo. A perspicácia subjacente às tuas observações, a respeito da minha última carta intitulada
Contribuições?, reforçam ainda mais o ónus de te elucidar sobre a problemática da tributação, agora na perspectiva da dicotomia impostos/Estado Social.
“ (…) Mais, quer-me parecer que a fantasia e a conveniência fazem-se passear de mãos dadas, ignorando a agonizante e decadente situação social e mantendo-se firme no seu trajecto utópico de agradar a gregos e troianos. (…)”
Bem, uma coisa é certa, há que louvar a perseverança
dita filantrópica de uns quantos iluminados, que convenientemente resignados às virtudes do Estado social, teimam em injectar na sociedade o antídoto da submissão a este modelo. Dir-nos-iam, não sem antes afastarem sob a forma de pergunta as dúvidas provocadas pelo desgaste do modelo, que é nossa obrigação sentirmo-nos verdadeiramente abençoados por termos a sorte de nele viver, ainda para mais quando sabemos que outros seres humanos, por força de ditaduras maléficas e catástrofes naturais (ou mesmo não naturais), se vêem privados muitas vezes da sua individualidade e do seu direito à vida, o que convirás, é um imensidão quando comparado com estas quezílias típicas de quem precisa de dizer mal de tudo e de todos.
A esses, eu respondo: desenganem-se, há dúvidas, eu pelo menos tenho dúvidas, nomeadamente quanto à viabilidade de se continuar a amamentar um modelo organizacional que se tem revelado cínico, injusto, desrespeitador e muito falível. A impraticabilidade deste modelo começa logo por exigir de pessoas posturas que estas já demonstraram não ser capazes de ter, pelo menos por si só, pessoal e livremente. Sem pretender com isto agravar a já de si extensa e velha questão de saber se o homem é naturalmente bom ou mau, não posso deixar de associar a degradação das sociedades ditas de primeiro mundo às pessoas que as constituem. Mais, num jeito bem português para que dúvidas não existam, depositar expectativas nestas é quase tão hilariante como esperar por D. Sebastião numa manhã de nevoeiro. Digo-o e repito-o, não nos enganemos ao pensar que nos preocupamos com o nosso semelhante, no momento de decidir e de agir, é cada um por si. O que me faz perguntar: se assim é na prática, qual a razão de se fomentar esta ilusão? Só vislumbro uma resposta, que é nem mais nem menos que o “facilitismo” típico do Estado Social. Já não é necessário lutar por condições, basta agora exigi-las que todos temos prazer em ajudar e fazemo-lo porque gostamos uns dos outros, porque somos um povo solidário e unido que não se importa de ceder o que é seu em nome do bem comum. Acreditas? Eu também não! Estamos com esta falsa responsabilidade a desacreditar quem honra os seus compromissos e se esforça por cumpri-los. Estamos também a promover a igualdade que trava o desenvolvimento e que só é justificada por uma inveja egoísta e comodista. Estamos a atrasar Portugal.
Mas não fica por aqui, já que cometi o impropério de importunar o teu merecido sono, deixa-me concluir com a não menos desavergonhada figura das “contribuições impostas” do teu Portugal. Recorrendo uma vez mais à sua abundante e exclusiva moralidade, a que de resto já fiz referência em missivas anteriores, a classe política vem ratificando aumentos tributários desmedidos em nome da clássica e enraizada redistribuição de riqueza, sem que as reais capacidades dos contribuintes sejam sequer equacionadas. Não ouso, pelo menos por agora, questionar o fundamento dessa redistribuição, mas não hesito em denunciar o redireccionamento impudente de uma substancial parte dos proventos dos cidadãos para fazer face a despesas públicas, muitas das quais manifestamente desadequadas às condições do país e sendo até facilmente consideradas supérfluas. Se este esbanjamento já de si deixa qualquer um estupefacto, mais perplexo se fica com a total disponibilidade com que os nossos semelhantes cedem a esta chantagem, demonstrando uma gigante falta de mobilização e sim, uma tímida e quase inexistente bravura, apenas manifestada esporadicamente em panfletos de papel e tarjas de plástico.

Terça-feira, 4 de Dezembro de 2007

Contribuições?

Escrevo-te para falar de impostos.
Qual marinheiro cede ao mitológico canto proveniente das agitadas águas, também eu não resisto aos encantos da persuasiva sedução fiscal, aquela que nos conduz ao rochedo e consequente afogamento. Amarro-me cautelosamente ao mastro e deixo-me levar pela árdua mas aliciante tarefa de te escrever sobre impostos.
Benjamin Franklin imortalizou um dia que “neste mundo nada pode ser dado como certo, à excepção da morte e dos impostos”. Atenta que, por maior que seja a tentação, não é minha pretensão defender aqui a utópica ideia da abolição dos impostos, até porque por mais deturpado que esteja o seu fim, vislumbro ainda uma perseverante luz proveniente do seu lado fraterno. Como bem perceberás, a minha única aspiração prende-se com o reivindicar de uma justa adequação dos mesmos à realidade do país e dos contribuintes.
Repara que, o exclusivo propósito de fazer face às despesas públicas sem que a vertente social seja prioritariamente equacionada, atribui ao imposto moderno uma forma acentuadamente grotesca, capaz de relegar o moribundo Estado Social para o perigoso e obscuro poço dos abusos e regalias onde jazem todos os Estados que cederam aos prazeres da extorsão. Mais, este goza ainda de uma sequaz e feroz imaginação, capaz de criar uma desmesurada multiplicidade de objectos passíveis de tributação que chega a ser desonesta, insolente e usurária, e isto sem atender aos valores dos mesmos.
Poderás facilmente censurar as ambições materialistas dos teus actuais congéneres, mas é conveniente não esqueceres que muito do que somos presentemente constitui um secular legado que nos faz lutar pelo acesso aos bens e à sua propriedade, o que aceitarás, justifica em muito a pouca receptividade existente para o cumprimento de avultados deveres tributários. Ainda assim, quando confrontados com a obrigação de pagar, estes renunciam instantaneamente e sem grandes contestações ao desejo de conservar para si os proveitos resultantes do seu suor. Mas não te iludas, não confundas esta atitude displicente com espírito de cidadania, até porque estou cegamente crente que mal os teus descendentes parem para pensar e constatem o quão ofensivos são certos impostos, medo algum os demoverá de lutar pela sua extinção.
A réstia de luz que ainda eclode do imposto, e a que previamente fiz referência, descende das pessoas e não dos sucessivos governos. Só a reivindicação permanente por uma justa e eficaz adequação dos impostos às necessidades do Estado e às possibilidades dos contribuintes permitirá que a vivência em comunidade seja possível, vivência essa que lamentavelmente, depende única e exclusivamente de todos aqueles que sacrificam vários dias por ano do seu calendário, para trabalhar para o Estado.
Não sei quando voltarei a escrever-te, sê paciente.

Domingo, 18 de Novembro de 2007

10 de Junho

Escrevo-te em defesa da língua portuguesa.
Vais ter de me perdoar o sacrilégio de nas próximas linhas te fazer partilhar o teu merecido pedestal com outros dois históricos lusitanos. Estou absolutamente convicto que entenderás o porquê de tamanho descaramento se te disser que esta minha intrepidez poderá ser motivada pela derradeira oportunidade de, em português de Portugal, homenagear quem tanto deu à lusofonia. Que estas palavras revistam a honrosa forma da glória e com elas se saúde D. Dinis, que com a sua acção oficializou a língua portuguesa e a ajudou a difundir através da criação da primeira universidade portuguesa, bem como Luís Vaz de Camões, poeta maior da alma lusa. Mas então – perguntas tu ainda – será isso motivo suficiente para abdicar da exclusividade, ainda que momentânea, do meu suado trono? Respondo-te afirmativamente e com humilde prontidão, o estado débil da nossa língua assim o exige.
Começo por te conceder uma efémera sensação de orgulho, proveniente da heróica e vitoriosa resistência da nossa língua aquando das invasões germânicas e árabes. Imortalizado que ficou ilustre feito, faço agora chegar até ti a amarga lembrança de uma nova invasão, por sinal bem mais silenciosa e intimidante, capaz de vulgarizar ataques passados: a da globalização. Ao contrário das invasões terrestres feitas a galope, ou das marítimas que desbravavam o desconhecido, a globalização é pacífica, consentida e feita diariamente a uma velocidade estonteante capaz de aproximar continentes em segundos. A necessidade de nos fazermos entender e de compreendermos o que chega até nós pelas mais diversas vias, faz com que abdiquemos muitas vezes da nossa identidade linguística, identidade essa que nos distingue enquanto país com mais anos de vida no mundo.
É-me particularmente difícil aceitar que em nome da aproximação dos povos e das suas relações económico-sociais, se relegue para segundo plano a vertente cultural, nomeadamente o português enquanto língua, que é possivelmente a maior riqueza nacional existente na actualidade, desde o ouro brasileiro. Não quero com isto vetar a submissão à globalização, que de resto me parece inevitável, o que me enfurece é o modo como o fazemos, com total despeito para com a língua portuguesa. Sabes bem que não tenho por hábito recorrer a exemplificações para suportar aquilo que te escrevo, mas neste caso achei por bem fazer referência a uma notícia reincidente que, infelizmente, parece estar prestes a ganhar contornos de veracidade. O Estado português está disposto a ceder na ratificação do acordo ortográfico que prevê alterações no vocabulário na casa dos 1,6%. Até aqui tudo bem, também eu entendo que a evolução é necessária e tendencialmente benéfica, mas não neste caso e nunca neste contexto. Bastava ler um pouco mais da citada notícia para perceber que no dito acordo, o Brasil apenas veria o seu léxico modificado em 0,45%. Ora, duas interpretações são possíveis a este respeito: ou os brasileiros falam português mais correctamente que os portugueses (o que não me parece ser manifestamente o caso), ou este acordo, bem ao jeito do mítico cavalo de Tróia, constitui o primeiro ataque da globalização à nossa soberania linguística. O papel crescente do Brasil na economia mundial aliado ao número de habitantes que o país alberga, pode por si só explicar o porquê de tão díspares percentagens, ao ponto de países de língua não portuguesa se referirem ao português do Brasil como “brazilian”. Os sucessivos governos portugueses há muito se conformaram com esta infâmia, preferindo ratificar acordos que nos colocam na situação de país colonizado, em vez de conciliarem o interesse nacional com o respeito pela nossa vasta história.
“À terceira é de vez”! É com este provérbio contemporâneo que tristemente te comunico o previsível desfecho de mais uma invasão ao teu reino, com a certeza que muito mais poderíamos ter feito para o evitar.
Da minha parte, porque ainda acredito ser possível vencer esta batalha, continuarei a escrever-te em português e a homenagear os saudosos portugueses que tanto enriqueceram Portugal.

Blogue Cartas para Santa Cruz apoia:
Petição contra a implementação do acordo ortográfico

Domingo, 4 de Novembro de 2007

Segundas vias

Escrevo-te para falar de direito de voto.
Correndo o risco de te parecer verdadeiramente obcecado pelos podres da democracia representativa do Portugal contemporâneo, peço-te que me dispenses a tua atenção a fim de poder dar continuidade ao que te escrevi há dias.
Comece-se por fazer jus a quem com inquestionável bravura e sacrifício lutou por dar voz aos cidadãos. Nota que numa sociedade capaz de honrar diariamente lutas passadas, livre da obscura e matreira sazonalidade eleitoral, também eu seria defensor do voto enquanto dever cívico. Lamentavelmente tal não se verifica e assim sou forçado a ver no voto somente um direito constitucionalmente consagrado. Como instintivamente perceberás, doutrina diversa é eloquentemente suportada por partidos políticos e seus distintos membros, que ao terem no voto um meio de auto-promoção e de sustento, respectivamente, permitem-se à extravagância momentânea de nos emprestarem um pouco da sua infindável e exclusiva moralidade, na defesa do voto enquanto dever cívico. Para o efeito, a letra da lei no texto constitucional português ganha no número dois do quadragésimo sexto artigo contornos de Robin no auxílio ao herói morcego, aqui subtilmente disfarçado de coacção moral, tendo em vista o combate contra a abstenção.
Certamente já te apercebeste do alcance que o voto tem no nosso quotidiano. Os votantes gozam do poder de condicionar a actuação do poder político, enquanto os votados têm a possibilidade altruísta de prosseguir o interesse público. Quer uns quer outros depositam no voto elevadas expectativas.
Vislumbro então o principal motivo desta carta: o valor do voto para o cidadão insatisfeito.
Tenho consciência que a muito me sujeito caso esta carta não chegue até ti, mas não posso deixar de dispensar algumas linhas para lamentar a atitude condescendente e leviana dos portugueses no momento do voto, cedendo quase que instantaneamente ao convite pró-amnésia das máquinas partidárias. Esquecem-se que a maior demonstração de desagrado, de descrença e de reprovação num sistema que valoriza o voto como é o português, ao contrário do que chega até nós na forma de articulado ou comício, é não votar. Repara que, votar em branco ou mesmo optar por votar nulo é sempre votar, no primeiro o voto é sinónimo de indiferença, no segundo é tido como um falso descontentamento, um desperdício, mas em qualquer um dos casos o voto conta para eleger quem não merece ser eleito. Por sua vez, não votar é também uma forma de participação democrática que não deve nunca ser confundida com anarquia. Não votar é exigir renovação do corpo eleitoral e não rotatividade, é exigir responsabilização e não misericórdia, é exigir de profissionais da oratória aquilo que qualquer cidadão patriota faria sem contrapartidas de maior, se estivesse habilitado para o fazer.
Felizmente não somos brasileiros e ainda podemos escolher se queremos exercer este direito.

Sexta-feira, 19 de Outubro de 2007

demokratía

Escrevo-te para falar de partidarismo político.
Talvez te seja mais fácil entender o que aqui te escrevo, se fizer previamente duas referências semânticas àquilo que actualmente designamos de partido e partidarismo.

Partido
s. m.,
conjunto de pessoas que seguem as mesmas ideias, especialmente em política;

Partidarismo
s. m.
paixão partidária; proselitismo; facciosismo.

Presumo que te estejas a interrogar da necessidade de pessoas se juntarem só pelo simples motivo de partilharem as mesmas convicções, as mesmas ideias. Assumo desde já a culpa. Ter-te-ia poupado a dúvidas desnecessárias se tivesse colocado “partidarismo” antes de “partido”, ou até mesmo em
Negrito, mas o aroma envenenado deambula livremente, e os espinhos da aparentemente frondosa flor que apelidamos de democracia representativa, raramente se deixam avistar.
Poupo-te à interessante mas extensa história da origem da democracia grega, aquela que muito antes de nos tornarmos compatriotas, conduziu alguns semelhantes nossos à justiça e às liberdades individuais, supostamente, as bases da sociedade actual. Adiante, conto-te apenas o essencial. O belo da democracia, que fascinou helenos fustigados pelas monarquias e repúblicas totalitárias, foi o aproximar do poder politico às populações, aproximação essa que tinha no voto directo dos seus congéneres para a prossecução de cargos públicos o seu expoente máximo. Acontece que a extensão dos territórios actuais e consequentemente a inexistente concentração populacional, impedem-nos de conhecer os nossos compatriotas, e não sendo possível conhecer as pessoas, somos forçados a conhecer os partidos.
Importa antes de mais ressalvar com veemência que não sou contra a democracia representativa, muito menos contra a democracia, bem antes pelo contrário. O que eu não posso conceber, e por esta razão te escrevo, é que se conceda a estas pessoas colectivas um apoio total e indefectível, uma fidelidade constante e cega, independentemente das nossas necessidades enquanto cidadãos, da nossa maneira de raciocinar, como se de uma obsessão se tratasse. As proporções desta “paixão partidária”, deste facciosismo desmesurado são de tal maneira incontroláveis, que conotações como esquerda e direita (algo tão elementar como a direcção que escolhemos quando passeamos no passeio) e imagens como frutos, flores e objectos (algo sem o qual não passamos diariamente) são usadas subtilmente, condicionando a nossa maneira de pensar e mesmo de agir. Parece que para tudo temos de tomar partido, ou se é de esquerda ou se é de direita, ou se é socialista ou é-se democrata. Esfumou-se a capacidade de raciocinar, de analisar uma questão e lutar pela sua verdade, por uma posição singular que nos identifique.
Sabes, no meu Portugal, o pertencer a um partido justifica que nos esqueçamos da razão e que nos limitemos a seguir a posição da nossa equipa. Como se um desporto se tratasse.
Até o nosso voto é condicionado, mas isso fica para outras podas.

Quinta-feira, 18 de Outubro de 2007

"Bula Manifestus Probatum"

Escrevo-te para saudar Zamora.
Compreende; destruir será sempre mais fácil que construir.